Wednesday, February 22, 2017

Vidas cortadas numa primavera anunciada






Almada Negreiros (1893-1970)
Sem título, sem data, grafite e guache sobre cartão
Colecção particular

“A vida é um dilema singelo, ou se é bigorna ou se é martelo.” 

Daniel SampaioTudo o Que Temos Cá Dentro

Ontem a notícia do aparecimento do corpo, nas águas do Douro, de um jovem de 16 anos. E hoje a hipótese levantada de suicídio por desgosto amoroso, leva-me a chorar este trágico desfecho.

Quando releio o que escrevi em Ah! Outono, morreste-me duas vezes, fico presa aos sentimentos que me assolavam na altura. Mas, comparando, com a dor que os pais deste adolescente sentem. Silencio.

Não há dor mais profunda que a perda de um filho. Senti o que meus pais viveram depois da morte por doença, de meu irmão mais novo, 13 anos.

Acompanhei depois alguns amigos na mesma dolorosa via de perda de filhos por doença e por suicídio. E não há palavras.

Mas, interrogo-me. E o sofrimento deste jovem? Alguém o ouviu? 

Fala-se pouco no suicídio de adolescentes. E fala-se pouco com os adolescentes sobre suicídio.

Eu sei. Psicólogos consideram que falar, pode desencadear actos semelhantes. Mas cala-se a dor dos pais. E silenciam-se jovens que precisariam de ser ouvidos, acompanhados? Persegue-me esta aflição.

A adolescência é um momento de descoberta e desorientação. Um período de transição que pode trazer questões de independência, de auto-identidade. 

Muitos adolescentes e seus pares enfrentam escolhas difíceis:  percurso escolar, sexualidade, drogas, álcool, vida social. Grupos de pares, interesses amorosos, aparência, tendem a aumentar, naturalmente, em importância durante a viagem de um adolescente em direcção à idade adulta.

A adolescência deveria ser uma época feliz, tudo vibra em volta. A natureza, os amigos, a música, a leitura, os amores. 

Adolescência deveria ser feliz, num mundo próprio de realidades simples.

"A arte de viver é simplesmente a arte de conviver... simplesmente, disse eu? Mas como é difícil!"

Mario Quintana

Para Tiago

Miósotis (pseudónimo)

22.02.2017
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Sunday, January 22, 2017

Um dia de Domingo








E domingo veio enroscar-se no interior da casa, de mim, na veemência de Janeiro. Pequeno almoço, tardio, na manhã calma.

De novo, o canto mais íntimo. E falo de mim, das coisas que faço, dos lazeres preguiçosos. Como este de domingo.

Dia de sol. Lindo. Céu azul límpido. Muito frio, lá fora. Abro as janelas para expirar profundamente. Zen. Mas depressa me retiro, Um arrepio de frio. Estremeço.

Um pouco engripada, conservo-me quente. Camisola confortável. Uma manta acolhedora. Faço um café bem aromatizado. Pego num livro.

Dia de preguiça lânguida, um jeitinho de fazer pouco, invento paisagens pelas palavras que leio.





Collateral Beauty
David Frankel/ Allan Loeb, 

E solto-me até outras imagens. Vêm de mansinho, algumas passagens do filme que ontem vi. Beleza Colateral. Três conceitos abstractos dão mote a uma história de vida. Um filme dramático com um pouco de magia. 

Tempo. Amor. Morte.

Beleza Colateral aborda uma temática muito difícil. No entanto, de forma delicada. Mostra-nos a tristeza e a dor profundas. Mas também a beleza que podemos ver em tanta coisa à nossa volta.

Sugere outras emoções. Alegria? Deixa uma boa mensagem. Esperança.

O dia está frio. Repito. Aconchego a manta, no sofá. 

Escolho o Tempo, hoje. E a beleza de ter este dia.


Miosótis (pseudónimo)

22.01.2017
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Monday, January 02, 2017

Herança de vida






credits: Christian Schloe

Aqui está minha vida.
Esta areia tão clara com desenhos de andar
dedicados ao vento.
Aqui está minha voz,
esta concha vazia, sombra de som
curtindo seu próprio lamento
Aqui está minha dor,
este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança,
este mar solitário
que de um lado era amor e, de outro, esquecimento.

Cecília Meireles, Aqui está minha vida



Quero então uma herança diferente. Areia clara, sim, com desenhos de andar de andar dedicados ao oceano. Gosto da brisa com cor de água-marinha. 

Voz sem tantos lamentos. Mágoa(s) de coral quase perfeito. E poucos momentos patéticos.

Quero uma herança mais leve. Menos solilóquios. Quero começar outros dias. De serenidade. Fruir dos aromas que envolvem a vida. 

Possa eu encontrar a paisagem quase perfeita para continuar. 

Pacificada, serena. Evitar o desassossego. Colorir o pensamento com aguarelas de momentos mais doces. Ternura. 

Um mar menos solitário. 
Ânimo para todos os afectos.

"Com as coisas que vão acontecendo vamos aprendendo que nada é impossível de solucionar, apenas siga adiante."

Papa Francisco


Miosótis (pseudónimo)

©glosa sobre poesia de Cecília Meireles

04.01.2017
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Saturday, December 17, 2016

Tempo de Natal não esquecido







Tiffany NY christmas window


Ode aos Natais Esquecidos

Eu vinha, pé ante pé, em busca da pequena porta 

que dava acesso aos mistérios da noite, 
daquela noite em particular, por ser a mais terna 
de todas as noites que a minha memória 
era capaz de guardar, com letras e sons, 
no seu bojo de coisas imateriais e imperecíveis. 
Tinha comigo os cães e os retratos dos mortos, 
a lembrança de outras noites e de outros dias, 
os brinquedos cansados da solidão dos quartos, 
os cadernos invadidos pelos saberes inúteis. 
E todos me diziam que era ainda muito cedo, 
porque a meia-noite morava já dentro do sono, 
no território dos anjos e dos outros seres alados, 
hora inatingível a clamar pela nossa paciência, 
meninos hirtos de olhos fixos na claridade 
enganadora de uma árvore sem nome. 

José Jorge Letria, (excerto), in 'Natal' 


Não. Para mim os natais da minha infância não estão esquecidos. Foi a parte mais suave e mais bonita da minha vida. 

Infância protegida, acarinhada, rodeada de muitos irmãos, todos rapazes, sendo eu a mais novinha, e de meus pais. Ah! E de minha avó materna. A única que pude conhecer. 

Avó Beatriz, loira com fios brancos, mulher guerreira, e que de tanta doçura me rodeou. Sua neta mais querida, dizia. A neta que a acompanhava até à quinta, nas férias da Páscoa ou de verão, e se levantava de madrugada para a acompanhar à missa da aldeia, hoje cidade, lá no Mosteiro. Nas terras do Minho, fronteira com Trás-os-Montes.

Mas no Natal, avó Beatriz vinha para a cidade e juntava-se aos netos todos. Mas a noite de Natal, ela preferia partilhar da nossa alegria, excitação, na espera das doze badaladas. 

Muito ensonados, saltávamos das camas, abríamos as portas dos quartos. E corríamos escadaria abaixo até ao verde pinheiro. Os rapazes mais indomáveis, deslizavam, velozes, pelo corrimão de madeira.

Que teria deixado o Pai Natal para cada um de nós? 

A casa era imensa, telhado lá no topo. Perfeito para as renas que puxavam o trenó poisarem e repousarem.

Havia vários fogões de sala. Portanto, a chaminé era grande, larga. Ideal para o Pai Natal passar com o seu imenso saco e cair directamente no fogão da sala grande, no último piso, onde se encontrava a árvore de verde pinho. A cadela Nina, uma Serra da Estrela, seguia-nos nessa excitação toda, companheira de todas as brincadeiras.

E meus pais, olhavam docemente, sorrindo cúmplices, ao observar os nossos olhos maravilhados, encadeados nas luzes da árvore de verde pinho. E nas prendas. Ouviam os nossos gritos Oh! de estupefacção - como poderia o Pai Natal ter recebido a nossa cartita? - e os nosso risos de alegria soltavam-se. E fingiam-se tão admirados quanto nós.

Até que um dia a morte entrou de rompante em nossa casa. E levou meu irmão, o mais novos dos rapazes. Mal fizera treze anos.

O Natal não voltou a ser o mesmo. O Pai Natal voltava. Mas já não ríamos despreocupados e felizes. Até Nina se tornara mais quieta. Ela que pressentira a noite que a morte rondou a nossa casa. Uivou lamuriosa.

Meus pais já não sorriam. Havia muita tristeza no seu olhar, Avó Beatriz tornou-se mais calada.

A grande emoção da nossa infância perdera-se com a partida de meu irmão.

Hoje, lembro todos. Muitos partiram. Tão precocemente. Avó Beatriz, meus pais. Eu não passava de uma miúda. A morte de meu irmão marcou seus corações. Não resistiram muitos anos. 

Mais tarde, há dez anos, meu irmão mais velho desistiu da vida. Meu grande amigo partiu, sem resistir. 

Todos juntos, assim acredito. Sinto. Olhando-me com ternura. Anjos protectores.

Nesta lembrança linda mesclada de tristeza, lembro os meninos de Alepo que já não choram. Meninos hirtos, de olhos fixos na claridade do fogo das armas que os matam, mutilam, traumatizam. 

Pecado dos senhores das guerras que roubam os natais às crianças de Alepo. 

Crianças que nunca terão lembranças doces de infância. Natais felizes, no aconchego do amor de seus pais. Em paz. Só guerra. 

Orfãos de pais, de amor, de paz. Percorrem as ruas, tentam fugir do inferno da guerra, perdidos. Sem pais, sem irmãos, sem brinquedos. 

Gostaria de crer, de novo, que o mundo se transformará para o Bem. E que os valores do respeito pela vida, voltarão ao coração dos Homens e das Mulheres de boa  vontade! Mas já não creio.


Miosótis (pseudónimo)

17.12.2016
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Saturday, December 03, 2016

Época de Natal






Christmas window


Dezembro, dia 1. É o início da preparação de Natal. Abertura oficial da época natalícia. Para mim, a festa da família. A doçaria que traz um aroma distinto à casa. Aromas de infância. Festa, luzes, cheiro a canela, creme queimado, risos das crianças, luzes feéricas que piscam intermitentes. Aconchego. Doçura. 

É o dia que aproveitamos para fazer a árvore de Natal, e decorar a casa. Dantes éramos mais a ornamentar a árvore ao som de Diana Krall ou WhamMelodias eternas que nos levam à magia da época.

Agora, a tradição é um pouco diferente, mas sempre especial. E há por perto um elemento inquieto que tem um papel bastante activo neste dia de montar a árvore: a gata siamesa que delira com as bolas e objectos decorativos, mete a patita nas caixas de cartão, rola as bolas pelo chão da sala, e espreita a possibilidade de atacar a árvore para retirar alguma decoração que lhe chame mais a atenção.

Bem diferente de uma outra gatinha, também ela siamesa, que viveu cá em casa durante muitos anos. E que partiu abruptamente. Muitas saudades.

Passava as noites, deitada na sua manta, poisada numa das cadeiras junto à árvore. E ali permanecia fiel, todas as noites, fascinada pelas luzes. Era a sua época de magia.

O passado de fazer o luto ainda presente, tenta colar-se. Mas sacudo. Deito fora com movimentos soltos que me ajudam a espantar todas as energias negativas porque tristes. 

A família virá. Estará de novo reunida. É preciso ter um sorriso lindo para oferecer. É a época de Natal.

Quero apenas as boas recordações que me apoiam no desapego dos sonhos que se desmoronaram tão completamente.

Sei que tenho vindo a criar novas rotinas, novas tradições que me alegrarão a alma. Não como acontecia antes. Não. Mas que me energizam para fixar no olhar esperança.

Porém, vou precisar de mais alguns Natais para lá chegar.

Miosótis (pseudónimo)

03.12.2016
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Friday, November 04, 2016

Já Sinto a Tua Falta : um filme #OutubroRosa






Já Sinto a Tua Falta/ Miss You Already
Catherine Hardwicke, 2015

Este ano, por motivos pessoais, não escrevi o post dedicado a Outubro Rosa, como sempre faço desde Outubro 2008

Sim, um pouco tardio eu sei, mas há infinito tempo para dedicar alguns pensamentos, melhor ideias ou factos sobre Outubro Rosa. Um filme e uma conferência, um concurso de fotografia.




Miss You Already
Catherine Hardwicke, 2015

Começo pelo filme Já Sinto a Tua Falta: Estreou no passado dia 3 Novembro. Está em exibição nas salas de cinema. Miss You Alreadyem português traduzido por Já Sinto a Tua Falta conta a história da amizade entre duas mulheres, Milly e Jessque vivem uma intensa viagem emocional quando uma descobre que tem cancro da mama.


O filme conta com Drew Barrymore (Jess), Toni Collette (Milly) e Jacqueline Bisset (mãe de Jess) no papel de três mulheres fortes que se esforçam para lidar com a doença da amiga, a sua própria, e a da filha.






Miss You Already
Catherine Hardwicke, 2015

Milly e Jess têm partilhado tudo desde os tempos da infância. Segredos, gargalhadas, roupas, namorados. Mas foram crescendo e tentam ser adultas.

Milly (Toni Colette) tem uma carreira de sucesso e vive numa belíssima vivenda da cidade. Tem marido, Kit e dois filhos.




Já Sinto a Tua Falta/ Miss You Already
Catherine Hardwicke, 2015

Jess (Drew Barrymore), por seu lado, trabalha como urbanista e vive com o namorado Jago num boémio barco atracado num dos canais londrinos.

A amizade entre as duas continua tão sólida como antes. Mas Milly, a bem-sucedida profissional vê a sua longa amizade com Jess testada quando descobre que tem cancro de mama. 

Assim, enquanto sofre a provação da quimioterapia e mastectomia, Jess começa o tratamento de fertilização. E dá-se como que um fenómeno de simbiose cósmica na amizade entre as duas mulheres, dando a Jess um triunfo pessoal (engravidar) enquanto Milly sofre um terrível reverso.





Já Sinto a Tua Falta/ Miss You Already
Catherine Hardwicke, 2015

Já Sinto a Tua Falta (Miss You Already) é um filme dramático  sobre o cancro ligado ao medo que tantas vezes nos assola o coração. Baseia a sua trama na amizade destas duas mulheres, na sua complexidade emocional, na sinceridade quase cirúrgica, e na sua vontade espontânea de rir, não importa a situação.






Um filme com um excelente elenco que conta Drew Barrymore, Toni Colette. E ainda Dominic Cooper - A Minha Semana com a Marilyn, Capitão América - e Paddy Considine (Orgulho, Macbeth) que interpretam os homens na vida destas duas amigas, e Jacqueline Bisset (Bem-Vindo a Nova York) no papel da mãe de Milly




 Catherine Hardwicke, Toni Collette e Morwenna Banks
créditos: Jeff Vespa/Getty Images

A realização é de Catherine Hardwicke, mais conhecida pelo seu trabalho na saga juvenil Twilight. Conta com argumento da actriz e escritora britânica Morwenna Banks, e na sua produção com Sheryl Crown (cantora que admiro há alguns anos) e Trudie Styler, produtora e mulher de Sting, entre outros nomes. Mulheres que viveram de perto o drama do cancro da mama.


Vivemos em nossos corpos, cada segundo das nossas vidas. E, no entanto, por vezes, temos terrivelmente pouco contrôlo sobre eles.


Uma história em que qualquer uma de nós se pode identificar. Não vi ainda. Mas tenciono ver, dado que apoia a luta contra o cancro.





"Os desafios que a Oncologia enfrenta irão marcar profundamente a sociedade nas próximas décadas. De acordo com as projeções nacionais e internacionais, a evolução demográfica e a exposição a factores de risco determinarão um aumento da incidência de doenças oncológicas."

2º Congresso de Sobreviventes de Cancro a Liga Portuguesa Contra o Cancro pretende promover um espaço de informação e de partilha, através da abordagem de temáticas de relevante interesse e dirigidas aos sobreviventes, cuidadores, voluntários, profissionais de saúde e população em geral. 

As inscrições são gratuitas aqui





Concours photo S'aimer Estée Lauder 2016
crédits: Solenne Charriot/ Nantes (44)

Outubro Rosa é o mês de luta e prevenção contra o cancro da mama, uma campanha mundial anual, organizada pelas maiores associações de luta contra o cancro da mama. Teve como precursora Estée Lauder no lançamento da campanha Pink Ribbon

Anualmente realiza-se o Estée Lauder Pink Ribbon Photo Award. "S'aimer", tema da edição 2016 do Concours Estée Lauder Pink Ribbon Photo Award, juntou perto de 300 fotógrafos, profissionais, amadores, oriundos de toda a França. 

A visitar a Galeria de Nomeados de 2016. Uma lição de coragem.


Miosótis (pseudónimo)

04.11.2016
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Friday, September 23, 2016

Ah! Outono. Morreste-me duas vezes





Outono
créditos: João Freitas Farinha


A vida tem-me silenciado. As palavras tornam-se cada vez mais parcas. E o sorriso que foi radioso, vai-se esvaindo. Levemente.

Mesmo aqui, neste espaço de desabafo, dos desassossegos constantes, sinto-me vazia. 

Hesito, escrevo o quê? O que me vai na alma? Mas está lá tão fundo. E as palavras? Não se soltam. Bloqueadas. Não tentam sequer revoltar-se, gritar: 

Anda! Abre lá o que te dói, te magoa! Solta-te! Exprime o que sentes! Nós falamos por ti!

Não. Nada. Nem este Outono que entrou lindo, sereno, me inspira, me reanima e leva a escrever. Abro a folha web. E fecho. Saio de mansinho. Desligo computador.

Procuro o refúgio, em olhar frágil, no firmamento que hoje se voltou a pintar de azul-pastel. Nem os aromas da brisa me aliciam. 

Tonalidades desfragmentadas. Outono em suspenso. Alma suspensa. Por um fio.

Busco a poesia. Releio Pessoa. E reaparece Outono. Volto então com poema de Pessoa. Na alma? A névoa dos afectos.


Uma névoa de Outono o ar raro vela

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]

Fernando Pessoa, (5.11.1932)
in Poesias Inéditas (1930-1935)


Afasto-me. Até me reencontrar. Procurar de novo o equilíbrio. A superação do que me dói. 

O tempo o dirá. Há vidas fustigadas, sem fim.

Miosótis (pseudónimo) 

fragmentos da noite com flores

23.09.2016
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